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sábado, 22 de outubro de 2011

City Girl (1930)



City Girl de F. W. Murnau. Um filme que fica na sombra de obras como Sunrise, Tabu ou Nosferatu. Não há diferenças entre qualquer um deles quando se atinge tal sentido lírico. Mais uma história, das mais simples, mas que nos consegue agarrar até ao fim. 80 anos passaram e o cinema já não é o mesmo. Já não é possível criar algo tão inocente como o rosto destes personagens.


O ambiente continua a ser o díptico campo/ cidade, em que para se ser feliz não é o local onde vivemos que será determinante para esta felicidade. O filme, que poderia ser nada mais do que uma história enquadrada nos padrões de filme de Hollywood, ganha corpo devido ao talento do alemão em que atinge o seu cume na sequência em que os dois apaixonados correm pelo campo. Para ver e rever. City Girl, tal como qualquer outro filme de Murnau que tenha visto, está na minha lista dos mais mais belos filmes do mundo.


João Gonçalves (Modern Times)

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Der Letzte Mann (1924)


O Último dos Homens é um filme obrigatório e digno de estudos sobre o cinema mudo, com um poder que não diminuiu em mais de 85 anos. O cruzamento entre o director de fotografia Karl Freund, com o argumentista Carl Mayer e F.W. Murnau originam um filme notável; Murnau estava no auge da sua força, enquanto que Freund, aos 34 anos era uma grande promessa da fotografia. É discutível saber qual dos dois será o responsável pela maioria dos atributos exclusivos do filme, mas também é facilmente perceptível que os seus talentos combinados tornaram o filme muito melhor do que o material poderia sugerir na tela, mesmo tendo em conta as habilidades melodramáticas de Mayer. É uma história simples, como qualquer outra contada através da interpretação, iluminação e cenografia, mas a razão para o seu sucesso é o seu trabalho de câmara inovador.
Ao retratar o porteiro confiante (um brilhante Emil Jannings) de um Hotel de luxo que acabará os seus dias a estender toalhas aos clientes que utilizam a casa-de-banho, Murnau acaba por mostrar, de forma crua, que toda e qualquer pessoa, a partir do momento em que a sua utilidade cessa, deve ser encostada a um canto, posta na prateleira. Enfim, deve ser afastada.


Obviamente, há muito mais para além desta mensagem básica, como é o caso da importância atribuída ao uniforme. O porteiro que, confiantemente passeava num bairro decrépito com o seu uniforme luminoso e resplandecente, depois da despromoção tudo fará para manter a farsa. O uniforme, símbolo de falsas aparências e convenções sociais fúteis acabará, assim, por ser o elo que manterá o decorrer da acção.
Dir-se-ia que Murnau retrata uma das aplicações da lei do mais forte nas sociedades modernas (o que, de certa forma, seria uma antevisão da triste realidade que a Alemanha viveria na década de 30 até 1945). Talvez, mas vai para além disso. Murnau, traça um retrato sarcástico do Homem cruel e insensível, mas, também, dos tontos que se fiam num qualquer símbolo de poder ou distinção, por mais insignificante que seja.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Nosferatu, eine Symphonie des Grauens (1922)



Para quem conhece a história de Drácula, e as suas inúmeras variações como adaptações cinematográficas, não há grande mistério no argumento deste clássico do cinema mudo. Os nomes dos personagens principais e alguns conceitos da história foram alterados. Agora, o famigerado vampiro é o conde Orlok, que também vive na Transilvânia. O jovem Hutter deixa a sua esposa e parte da sua cidade na Alemanha para se encontrar com o conde e finalizar a compra de um imóvel. Mas ele descobre que não é essa a verdadeira intenção do seu anfitrião. Os caminhos de ambos divergem quando Orlok deixa o castelo para se dirigir à cidade de Hutter e o rapaz escapa corajosamente do seu cativeiro.

Friedrich Wilhelm Murnau, nascido em 1888, um ex-piloto de caças da Primeira Guerra Mundial, chegou à cadeira da realização um pouco tardiamente. O seu primeiro filme, Der Knabe in Blau, uma curta de terror sobre uma pintura assombrada e o tema da reencarnação foi concluída em 1919, mas agora, infelizmente, encontra-se perdido. O movimento expressionista, de que Murnau fazia parte, tinha já nesta altura produzido obras incriveis. De Robert Wiene era Der Kabinett des Doktor Caligari (O Gabinete do Dr. Caligari), que juntamente com a obra de Carl Boese e Paul Wegener, "Der Golem, wie er in die Welt kam" (Golem) de 1920 são considerados obras seminais. O uso exagerado de ângulos de câmera, com uma iluminação fora do comum davam a estes filmes um ambiente misterioso, numa tentativa de provocar medo.



Nosferatu foi a primeira, e única, produção da própria empresa de Murnau, a Prana-film. A produtora foi fustigada por gastos excessivos sobre a promoção do filme, um fato que quase custou o lançamento da própria obra. Nosferatu é uma adaptação livre da obra de Bram Stoker, Dracula, por Henrik Galeen, o que significa que a Prana nunca garantiu os direitos para fazer o filme, optando por alterar os nomes, locais e alguns pormenores da trama. No entanto, ninguém foi enganado, pelo menos os Stokers, mas a viúva, que ficou empobrecida pela morte do marido, e ficou totalmente dependentes das receitas dos seus livros, levou a Prana a tribunal por violação dos direitos autorais. No entanto, como a produtora já estava perto da banca-rota, o tribunal ordenou que todas as cópias fossem destruídas. É uma benção que a ordem judicial não foi executada em todo o mundo ou que teria sido roubada uma obra-prima do cinema mundial. As cópias de Nosferatu que sobreviveram fora da Alemanha foram continuamente trabalhadas e lançadas em diferentes versões, com legendas em inglês, e muito provavelmente não refletem completamente a obra original de Murnau. Tudo o que se pode imaginar é que o impacto deste filme, na época de seu lançamento, não deve ter sido pequeno.



Max Schreck, na figura do vampiro, tem uma interpretação intocável. Repugnante e assustador, o seu vampiro é capaz ainda de provocar pena em algumas sequências, para dali a pouco causar repulsa ao se mostrar um simples parasita, imóvel diante da câmera enquanto se alimenta da sua vítima desfalecida.


Francisco Rocha / My One Thousand Movies