
«Não há maior solidão que a de um samurai, excepto talvez a de um tigre na selva…»
Com esta enigmática frase, supostamente extraída do ‘Livro do Samurai’ mas escrita pelo próprio Melville, o filme apresenta-nos Jef Costello (Alain Delon), assassino profissional que segue uma rígida conduta de actuação. Mas durante a execução do seu mais recente “trabalho”, Jef não se revela tão prudente e vê-se freneticamente perseguido, tanto pela polícia como pelos homens que o contrataram, numa fuga que culminará num surpreendente enlace…
É difícil encontrar outro argumento, na História do Cinema, que tenha sido tão bem filmado como o de LE SAMOURAÏ (o qual viria a ser revisitado pelo próprio Melville em filmes posteriores e inspirou cineastas como Jim Jarmusch ou John Woo). No seu estatuto de eficiente objecto cinematográfico, possui todas as virtudes de um noir Americano mas com vincada sensibilidade europeia, a qual tornaria alguns dos seus elementos demasiado melodramáticos, talvez até pretensiosos, para um filme de Hollywood.

Em LE SAMOURAÏ, Paris metamorfoseia-se na “Cidade das Sombras”, cenário e ambiente ideais para inesquecíveis sequências de acção contida (como a perseguição pelo metropolitano parisiense), parcas em diálogos e levadas a cabo por um protagonista soturno que possibilitou a Alain Delon o melhor desempenho da sua carreira.
Título austero, romântico, inquietante e intemporal do film noir Europeu — para o deleite assegurado de todos os que seguem a presente iniciativa do Tertúlia do Cinema.
Samuel Andrade / Keyzer Soze’s Place