quinta-feira, 5 de maio de 2011

Samuel Fuller

Fuller, cineasta maldito e incompreendido, tantas vezes injustiçado e difamado sem razão aparente, cineasta antagónico de Capra ou de Ford. Nada de patriotismos ou de lirismos daquele american way of life dos acima citados, não… nada disso, nada de subtilezas ou integridades, nada comparado a Sirk ou a Stahl. Não, nada disso. Fuller, o tal que um dia disse “Film is a battleground. Love, hate, violence, action, death...In a word, emotion”, cineasta do melodrama mundano, explorador das sombras da corrupção do noir, da loucura e da podridão do mundo, da violência e da estupidez da guerra. Cineasta moral na sua lucidez da realidade, rejeita qualquer utopia ou esperança de felicidades ou mundos cor-de-rosa, cineasta da amoralidade, anti-guerra e anti-racista, cineasta da dignidade que se encontra na amoralidade. Todos os seus personagens são indivíduos marginais, à margem da sociedade. E o que Fuller faz é inseri-los no colectivo, dar-lhes a sua dignidade, a sua bondade e a sua capacidade para sobreviver no meio da podridão, da corrupção e da marginalidade. Todos os seus personagens são ora prostitutas, ora ladrões, criminosos ou policias ou soldados racistas que recusam quaisquer integridades. Tudo no caminho do limiar da corrupção, da perversidade e do negrume da vida. Não há hoje em dia cineastas assim em Hollywood (mil Aronofskys, mil Nolans ou mil Scotts e nem assim lhe chegavam aos calcanhares), homens que dentro do sistema o rejeitem (ao sistema), não há. Cineasta da forma e da negrura do mundo e do ser humano, cineasta explosivo, poeta da injustiça e da violência do mundo, homem do submundo. Falo do rebelde, do cinema subversivo que explode, que rejeita qualquer ligeireza ou facilitismo técnico. Nada como Peckinpah (que foi outro dos grandes doutra forma), nada dessa violência física e desmedida, gratuita. Não, tudo como Ray, tudo como um todo classicista alheio a qualquer patriotismo ou qualquer romantismo que se possa querer ou esperar. Sim, tudo isso no negrume do classicismo e do film noir (nada de Tourneur ou de Welles ou de Wilder, tudo tão parecido ao noir de Preminger), coisa visceral na iminência de explodir, na iminência da violência psicológica que anda por ali, tudo á volta da pequenez do ser humano, negro de tão negro que assusta o homem, o homem que nada pode para fugir à sua condição, verme rastejante que luta pela sobrevivência, que se encontra no meio, naquele meio do submundo. É isso que Fuller procura, a perversidade do ser humano, a igualdade do ser, das classes, a universalidade do indivíduo, a sua igualdade inclusive o seu estatuto, a sordidez do mundo, do ser humano, das classes, o submundo, a guerra. E quando falo de guerra falo de toda a guerra, da guerra de Fixed Bayonets!, The Steel Helmet ou desse monumento que é The Big Red One até à guerra interior que todos os seus personagens atravessam tanto em Pickup On South Street como em Forty Guns ou no Shock Corridor ou nos The Steel Helmet e Fixed Bayonets!. Tudo, tudo em Fuller procura esse conflito interior no ser humano. Falo das emoções, falo da forma, falo das sombras. Em Fuller tudo é horroroso, tudo é amoral para acabar na moral, tudo se serve da amoralidade para acabar na moralidade. E isso não só aparece no noir ou na guerra ou no western como no melodrama, no Naked Kiss que tudo faz para nos contar uma estória de redenção duma puta para acabar na condenação da pedofilia, ou no Shock Corridor que tudo aponta para a estória de loucura mas que esconde o anti-racismo (ao contrário do White Dog que o mostra como tema central) e a rejeição da guerra, ou no Pickup On South Street que mostra o combate ao comunismo mas que esconde os princípios do ser humano. Sim, são filmes de princípios, porque de princípios é feito o homem. São coisas inerentes ao ser humano, coisas que só o animal é alheio (e da animalidade vive o homem vil, da falta de dignidade ou de honra). Tudo é possível no homem, toda a escuridão, a negrura, tudo isso é para mostrar o mundo como ele é, não se trata de pessimismo ou coisa semelhante. Nada disso, trata-se de mostrar o ser humano, a forma do ser humano, as acções e os sentimentos deste, o amor. O porquê das coisas, das acções do ser humano, a frieza da marginalidade e do submundo no noir, dos fora-da-lei nos westerns, a implacabilidade do ser humano, do submundo, a dureza, os trajectos, as escolhas e as indecisões do homem. Tudo tão destrutivo, tão devastador, tudo tão implacável na sua forma e na forma de fazer cinema. Tudo tão perto da explosão emocional daqueles personagens, o espaço que comprime naquele tempo aquela veracidade, aquela dureza e emoção dos personagens, o mundo todo ali naqueles personagens. Sei lá, a frieza do olhar, um qualquer lirismo presente ali, por mais fundo que lá esteja ou escondido naquela dureza do olhar, das acções, dos caminhos e dos movimentos, dos raccords, dos planos e contra-planos, dos enquadramentos, da cor ou do preto e branco, das sombras e da escuridão, uma melancolia qualquer presente naquela gente, naquele mundo, uma irracionalidade inerente ao homem, uma resignação ou aceitação da condição humana ou acima disso, da condição social de todo o ser humano. Nada tão belo como isso, nada tão devastador quanto Fuller.

Álvaro Martins / Preto e Branco

Sem comentários:

Enviar um comentário