sexta-feira, 13 de maio de 2011

Pickup on South Street (1953)


Fuller era um provocador. Um cinico provocador aliás. Sabia como o mundo se tecia e sabia também que a fábula que Hollywood vendia se afastava, se possível, cada vez mais do mundo real. O mundo que ele vivera na pele. Talvez por isso a sua obra seja um constante desafio moral. Uma constante provocação ao seu patronato, ao seu público. A si mesmo. Muitos foram os titulos marcantes que desafiaram as convenções sociais durante a sua etapa como realizador. Mas o primeiro, o que definiu o estilo do homem sem medo, foi Pick Up on South Street. Aí Fuller passou o risco pela primeira vez. Meteu-se com a América numa época em que havia poucas coisas mais perigosas que desafiar a Pax Americana. E anunciou ao Mundo a sua voz.

É verdade que antes já tinha havido Bayonettes! e Park Row, duas obras fundamentais da alteração moral que vivia Hollywood com a popularidade do cinema noir de Huston, Hawks, Ray e Tourneaur. Mas, projectos pessoais como eram, perdiam nesse toque de provocação pura que fez do filme de 1953 um clássico absoluto. É dificil imaginar frase tão provocativa para a época como a que McCoy (um Richard Widmark em grande) lança em nome do próprio Fuller:“Are you waving the flag at me?”.
Questionar o patriotismo num filme de espionagem e numa era em que a Guerra Fria entrava no seu periodo mais quente era um salto arriscado. Mas funcionou. Pick Up on South Street tornou-se num filme icónico do genero e ajudou a desfazer alguns tabus à volta da relação entre os EUA e os agentes do Bloco de Leste. McCoy, o vulgar pickpocket (carteirista), não imagina a grandeza daquilo a que se enfrenta. Mas para um homem que enfria a sua cerveja no rio Hudson os conceitos de patriotismo e lealdade fazem pouco sentido (You will do business with a red, but I don’t have to believe them.). Ele é o anti-herói do noir por excelência porque actua sempre pensando em si mesmo, sem cair nos valores sociais que constituem o amén do entorno que o rodeia. Candy é a rapariga que se deixa seduzir pelo dinheiro mas que tem sempre aquele traço de tristeza no rosto por trair o seu país. Nela existe um peso na consciência. Em McCoy só um buraco no bolso das calças.

A narrativa arranca com um roubo vulgar de carteira, uma dessas acções vulgares que Hollywood desprezava, por mundanas, mas que fazem todo o sentido na obra fulleriana. Esse roubo de carteira só se torna importante porque inclui um microfilme com informações de inteligência que agentes comunistas infiltrados querem passar para fora dos Estados Unidos. Quando Candy, a amante do agente soviético, percebe, numa sequência memorável, que perdeu o microfilme e com isso a confiança do seu companheiro, a teia está lançada. Fuller transforma-a numa mulher disposta a tudo, uma mulher que está preparada para vender-se não pela pátria, mas pelo lucro pessoal. Do outro lado encontra um homem que não se importa de deixar-se comprar, mas sempre e quando o lucro seja dele. Nesse jogo de interesses não há moralismos nem “stars and stripes”. Há violência, despeito, dor e ressentimento com as rasteiras da vida, as mesmas que atiraram Candy para os braços de Skip, as mesmas que fizeram de McCoy quem ele é, um homem consumido pelo egocentrismo que esconde o seu particular ódio à pátria. Para McCoy o microfilme só se torna realmente importante quando Skip e Moe se enfrentam, silenciosamente, num desfiladeiro sem regresso. Para Candy esse é o momento em que deixa de fazer qualquer diferença. Talvez por isso os desencontros que os marcam sejam também espelho dos eternos desencontros entre americanos e soviéticos. Talvez por isso também o olhar de McCoy e Candy sejam como a cortina, de ferro.Fuller filmou Pick Up on South Street no seu habitual registo recorde. Preferiu a belissima Jean Peters às mais celebres Marilyn Monroe ou Ava Gardner porque tinha um estilo de rua que o seduzia. Entregou a Widmark e Ritter as sequências mais impactantes e os dois actores não o desiludiram. O filme marcou o seu ponto alto na Fox que lhe permitiu voltar a roçar os limites nos filmes seguintes, The House of Bamboo e Forty Guns, talvez cinematograficamente ainda mais complexos. Mas Pick Up on South Street foi, também, um filme que abriu um estilo próprio do qual, 60 anos depois nomes como Tarantino ainda bebem vorazmente.


Miguel Lourenço Pereira / CINEMA

2 comentários:

  1. Marcou a minha iniciação a Fuller este regresso ao Noir na tertúlia.
    Gostei muito e concordo com o casting, a Jean Peters está mesmo belíssima :)

    Venha o próximo.

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